
TEXTO FOI FEITO PARA SE LER COM CALMA, SE ESTIVER FAZENDO ALGO MAIS, FAVOR NEM LER.
MAIS UMA COISA, NÃO ESCREVO CONTOS DE FADAS COM A EXPRESSÃO: E VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE!
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Telefone toca!
Envolto de sonolência Gustav se remexe nos lençóis, franze as sobrancelhas incomodado pelo barulho. Pega o telefone e com voz distante diz:
- Alô!
- Oi Gustav! – Responde uma voz doce e misteriosa.
- Quem está falando? – Pergunta Gustav!
- Não reconheces a minha voz? A gente conversou muito semana passada, tu estavas com teus amigos e tu não paravas de me olhar.
- Como vou saber? Eu olho para tanta gente, na verdade, tem pessoas que me cumprimentam na rua e eu nem sei quem é.
- O que eu sou para você? O que sua namorada é para você? O que você é para você?
O telefone é desligado pela pessoa da voz doce e misteriosa, Gustav fica segurando o telefone perplexo. Seus pensamentos ficam perturbados e ele perde todo o sono que tivera outrora quando atendeu a ligação.
Seu sono fugiu, e seus únicos pensamentos foram direcionados para a voz doce e misteriosa.
- Quem é essa pessoa? Pelo menos pela voz, acho que é mulher. – Pensa Gustav.
O alarme do despertador soa e Gustav, olha distante para o aparelho com uma face desprovida de interesse. O barulho que o incomodava e lhe fazia querer desativá-lo o mais rápido possível foi dissipado. Ele levanta e se dirige ao banheiro para escovar os dentes e tomar banho. Os vizinhos do apartamento abaixo acostumados com suas canções no banho ficam estranhando o barulho do chuveiro e a ausência de canto. Estava lá Gustav, tomando banho como naturalmente faz toda a manha, no entanto, suas mãos ensaboadas deslizavam muito mais suaves e vagarosamente limpando seu corpo. Hipnotizado pelo acontecido, estava Gustav olhando para o nada, seus atos eram sempre automáticos e irracionais.
Saindo de casa, Gustav desce as escadas em vez do elevador, vai à garagem caminhando lenta e contemplativamente. O porteiro estranha sua reação, pois o senhor Gustav (como o chamava) sempre entrava na garagem rapidamente e com a face demonstrando responsabilidade, independentemente de como ele se desloca procurando seu carro, o porteiro permanece sentado em sua gruta. Saindo com seu carro, começa a observar os carros em sua volta, o tráfego, e numa reação instintiva quase animal seus olhos ficam arregalados quando avista um outdoor no meio de estrada com as três perguntas da voz doce e misteriosa: O que eu sou para você? O que sua namorada é para você? O que você é para você?
Seu coração dispara tal como as batidas rápidas e consistentes de um beija-flor, Gustav reduz a velocidade e num momento de total introspecção pergunta a sua consciência se estava ficando louco, ou se de fato estava realmente olhando a realidade. Como que em milésimos de segundos, ele tem um insight de que está num sonho do qual não pode acordar. Adrenalina pulsando por suas veias, outrora a única experiência que tivera que se aproximasse desse estado de tensão era suas rotineiras e fúteis manhas que acordava tal como se liga um eletrodoméstico na luz, instantaneamente que os olhos se abriam ele já estava transbordando de preocupações, compromissos, festas de glamour. Não obstante, a adrenalina que estava em suas veias, era a confrontação anônima, misteriosa e mística. Olhando para os lados e percebeu que cada pessoa, cada ser vivente estava contemplando-o como se estivessem fazendo as mesmas perguntas da voz doce e misteriosa e do outdoor. Sua consciência confusa lançava turbilhões de teorias sobre todo o ocorrido, nenhuma delas o fazia sossegar sua mente, pelo contrário, se sentia perdido. Seu coração batia forte, sua mente viajava, seu corpo estava mole, as pessoas o contemplando, a mensagem do outdoor, a voz doce e misteriosa. Sua mente não encontrava chão, sua mente não encontrava segurança, ele olhava para os lados alarmado e imagina seu pedido de socorro para seus colegas de trabalho, no entanto, se deu por conta que eles estavam muito ocupados com suas tarefas. Não tinha ninguém, não sentia ninguém, estava isolado. Nesse percurso de tempo, nasce em seu coração sentimentos confusos e conflitantes, sentimentos que foram há muito tempo esquecidos, a saudade, o carinho, o afeto. Não tinha certeza da convicção que seu coração o estava direcionando, pois mesmo dentro dessa loucura, ele tinha a percepção que eram as únicas coisas que precisava.
-Socorro! Deus me ajuda! To ficando louco! Eu quero minha mãe, minha namorada! Eu quero me sentir seguro com eles. - Grita Gustav.
Depois desse grito sua mente silencia. Silêncio totalmente brando, como aquele alivio de saber que se fez a coisa correta. Surge um barulho estranho em seus ouvidos, como que pulsões de seu próprio coração, acha estranho o som, depois se da por conta que os barulhos são como via na TV, quando alguém estava hospitalizado. Toda a atmosfera apavorante se desfaz, Gustav sente seu corpo como que vencendo a gravidade, quanto mais alto mais nítido é o som do aparelho, sua mente fica entorpecida e na rapidez de um piscar de olhos está deitado sem conseguir abrir os olhos, na total escuridão ouvindo cochichos de pessoas, pelo som da voz, reconhece sua mãe e sua namorada, falando com pesar. Instantaneamente que reconhece o tom de voz da mãe e da namorada, seu coração dispara, o som que pulsa, acompanha suas batidas. Percebendo essa alteração, sua mãe e namorada se aproximam e cada uma pega uma mão, a freqüência cardíaca aumenta cada vez mais, a emoção toma conta do leito e do quarto do hospital, vazia tempos que não se tinha a oportunidade de expor sentimentos. Emocionado, reconhece o valor de estar junto de quem se gosta, tem a resposta para as três perguntas. Num impulso de emoção e arrependimento, na tentativa de abraçá-las permanece imóvel. Sua mente sonolenta em razão dos fortes medicamentos estava totalmente amedrontada, não queria acreditar no que estava óbvio. Nesse instante, Gustav escuta passos se aproximando e escuta uma voz pausada e triste afirmando que Gustav teve um enfarte e que a vida agitada e as más refeições o levaram para esse quadro, de coma. Sua consciência inacessível se transtorna mais uma vez. Seu único desejo é estar com sua mãe, sua namorada.
Dizem que antes de morrer, enfrentamos nossos assuntos inacabados, seu corpo não se permitiu morrer sem que esses assuntos fossem de fato resolvidos. Paradoxalmente foi a morte que o trouxe de volta para o que realmente importava.